Laços
Por jcarino | Categoria Minhas crônicas
Eis minha crônica semanal das terças.
Clicando na ilustração, pode ser acessado o site Crônicas Cariocas, que contém mais de cem de minhas crônicas.
Laços, reais ou simbólicos, nos acompanham por toda a vida. Vivemos enlaçados.
Laços carinhosos, delicados, compõem as roupinhas e mantas dos bebês, mesmo antes que eles cheguem ao mundo, criando e aprofundando laços entre todos os que estão à sua volta.
Muitas vezes, o próprio cordão umbilical – esse laço primeiro, fundamental, primordial, de ligação da vida – se enlaça no pescoço do nascituro, tornando-se, na hora do parto, o primeiro drama, a primeira luta, no início da vida de tantas lutas.
Antes disso tudo, e quase sempre, laços afetivos, configurados no enlaçar criado pela paixão, pelo amor, pelo sexo, fazem possível o milagre da procriação.
Os laços de fita, coroando de graça a cabeça da menininha, antecipam os muitos laços que, ao longo da vida, enfeitarão as roupas da criança, da jovem, da mulher feita, contribuindo, com a poesia dos laços, para o jogo da sedução. E, na velhice, lá estão os laços enfeitando os vestidos da senhora e contribuindo para sua elegância e serena sedução no ocaso da vida.
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Crônica veloz
Por jcarino | Categoria Podcast - Minhas narrações
Aí está mais uma de minhas crônicas narrada por mim.
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Roubando almas
Por jcarino | Categoria Minhas crônicas
Relatos antropológicos nos dão conta de que índios, em seu contacto com os brancos, fugiam espavoridos ao verem sua imagem registrada pelas máquinas fotográficas.
Perguntados sobre o porquê desse pavor, os silvícolas explicavam, de olhos esbugalhados, que iriam morrer, porque suas almas teriam sido capturadas por essas engenhocas infernais.
Pois o que mais vemos agora são “ladrões de alma”. Se antes as fotografias exigiam um equipamento pesado e complicado, agora quase todo mundo tem à mão máquinas fotográficas, ou simplesmente um telefones celulares que permitem tirar fotos.
Desde meados do século XIX, quando Niépce, Daguerre e outros geniais inventores criaram as máquinas que permitiram “desenhar com luz” - segundo a etimologia da palavra “fotografia”, oriunda do grego - não pararam mais os aperfeiçoamentos que elevaram as simples, toscas e grandemente perecíveis formas de gravar imagens à condição da maravilhosa arte de fotografar.
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Água alienígena
Por jcarino | Categoria Meus contos
O texto a seguir é um dos que compõem meu ainda inédito livro de contos .
Chegou cansada da lida. O calor incomum daqueles dias fizera estragos: roupas empapadas de suor; o perfume caro e sedutor vencido pelo cheiro agridoce das emanações orgânicas; cansaço e calor unidos numa conspiração invencível.
Ah, quem dera agora água. Incolor, fresca, inodora, com a humildade dos elementos simples. Água comum, sem a arrogância dos líquidos complexos, compostos de tantas químicas, de tantos extratos e substratos. Água da bica, fresca e boa, com a bondade das coisas que queremos muito.
Os movimentos lentos e penosos do despir-se são acompanhados de pensamentos lentos. A infância volta com força trazendo as férias na roça. Cidade pequena e um nada fazer constante. Cidade feita de tagarelices e de cheiros: cheiro de mato, de fumaça, de leite saído direto da vaca. E cheiro de água.
Água cheira? pensa. Se não cheira, que cheiro é esse, brotando, mais que do fundo da alma, atravessando todas as camadas edipianas, se entranhando em todos os complexos, contaminando todas as neuroses? Mais que de água, cheiro de umidade que antecipa a água, qual trombeta desafinada anunciando a água benfazeja, água como aquela que descia a cântaros pelos barrancos na cidadezinha miúda de sua infância.
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O banho
Por jcarino | Categoria Minhas crônicas
Enquanto me banho reflito sobre este ato, a um tempo tão corriqueiro e tão fundamental.
Um banho ultrapassa de muito a necessidade física da limpeza. É, por exemplo, um dos poucos momentos que essa louca vida moderna, cobrando-nos cada vez mais transparência e coletividade, concede-nos como solidariedade. Essa solidão molhada torna-se uma das poucas oportunidades de estarmos conosco – em paz ou em conflito.
A água que escorre dá-nos a sensação de nosso próprio corpo, sua superfície, volume, formas, rugosidades, reentrâncias. Banhando-nos, e com um pouco de atenção, podemos tomar plena consciência de nossa existência física. Nus, sob a água, além de nossas mãos, nosso pensamento também pode percorrer essa realidade de corpo concreto, quase sempre esquecida, ou somente lembrada quando a dor, as limitações ou as necessidades fisiológicas vêm nos lembrar de que nosso corpo existe.
Quando será que os banhos involuntários, provocados pela rudeza das intempéries ou pelas necessidades da caça e da pesca, se transformaram em atos voluntários, prazerosos, e até mesmo rituais, no caso dos animais humanos?
Talvez, quem sabe, tenha sido com o corpo mergulhado em águas límpidas e imemoriais, nas savanas primordiais, que a mente encontrou sua vocação para a construção da inteligência, para o pensar prático, para o divagar necessário ou para a sublimidade da arte e da poesia.
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Terra molhada
Por jcarino | Categoria Podcast - Minhas narrações
A seguir, mais uma de minhas crônicas antigas, narrada por mim.
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A chuva vem aí!
Por jcarino | Categoria Minhas crônicas
Eis mais uma de minhas crônicas semanais, publicadas todas as terças-feiras, aqui e no site Crônicas Cariocas.
Desejando ler outras crônicas minhas nesse site, clique na ilustração.
A claridade desmaia lentamente. A luz cede lugar a um indefinível tom, na paleta de que são feitas as cores do dia.
O ar se torna mais denso. Um vento brando e cálido começa aos poucos sua brincadeira séria com as folhas: movem-se, a princípio com lentidão, os galhos, os ramos, as hastes, até que as folhas entram numa cadência especial na dança da mudança do tempo.
Muitas flores caem, no que aparentemente é apenas um belo suicídio; na verdade, isso significa uma celebração da beleza do ciclo vital, nas mutações inevitáveis para o viço da natureza e perpetuação da vida.
Tudo muda, com uma expectativa indefinível: os pássaros voam daqui para ali, antecipando a busca de abrigo; as pessoas apressam-se, também procurando guarida.
A essa altura, sobre o mar, uma espécie de cortina de neblina interpõe-se entre nosso olhar e a vista das montanhas distantes e dos prédios lá longe. O que parece tão sólido nos dias claros e de sol transmuta-se em algo que surge leve, quase inefável: um monte, um edifício, um veículo – todas essas massas de solidez que nos cercam aparecem agora leves, como que flutuando nessa bruma.
As narinas já podem sentir um odor diferente, antecipando a umidade que dentro em pouco vai predominar.
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NAS ENTRANHAS
Por jcarino | Categoria Meus contos
Este meu conto foi um dos vencedores do I Concurso Paulista de Contos e Poesias, promovido pela Companhia Paulista de Trens Urbanos e Metrô de São Paulo. “Nas entranhas” foi incluído entre os dez contos considerados vencedores,entre centenas enviados de todo o Brasil. O prêmio foi a publicação no volume intitulado “A literatura nos trilhos”, São Paulo, IBRASA, 2002.
Interessante observar que o regulamento obrigava a que os contos concorrentes tivessem relação com trens ou metrô. Espero que gostem de solução literária que encontrei para esta exigência.
Só quando desce às entranhas da terra sente as próprias entranhas menos revoltas. Anda pela cidade há anos, com o mesmo paletó amarfanhado, com uma cor indefinida de tão encardido. Há muito tempo anda. Desde que não tem mais ninguém, como resultado da seqüência inexorável: perda do emprego, sem conseguir outro pela condição de “velho” aos sessenta e poucos anos; afastamento do casal de filhos, que foram às suas próprias vidas; falta da briguenta, mas amorosa companheira de muitos anos; pensão miserável – incompreensível e injustíssima retribuição por tantos anos de trabalho árduo e honesto.
Andar, andar, andar. E olhar a cidade. Gosta de ver lugares e pessoas. Hoje, só de ver, observar. Antes, ainda se deixava ficar na barbearia do Neco ou no bar do Arnaldo, ouvindo e às vezes participando das conversas, que acabavam perdidas nas lamentações sem fim, na indignação verbal mais próxima do “fogo de palha”, ou que descambavam para as piadas chulas e quase sempre machistas, comuns entre velhos solitários cujo sexo transferiu-se apenas para a cabeça.
Sempre gostou de observar rostos. As faces traem inapelavelmente o estado da alma. Olhares perdidos; testas franzidas; cenhos carregados; bocas banguelas; ombros curvados; lábios de onde pendem cigarros vagabundos; narizes pagando o preço da poluição…
Gente apressada ou lerda; gorda ou magra; alta ou baixa. Gosta de ver gente nesse formigueiro humano, nesse tumulto de assustadiços em que a cidade se transformou.
Transformação. Onde o bonde que vinha apinhado rangendo rodas – ferro contra ferro – nas curvas das ruas estreitas? Onde os homens com chapéus, signo do que considerava a maior elegância, a ponto de ainda manter aquele cinza dependurado atrás da porta do quarto onde mora naquela espelunca? Onde o chope gelado, tomado em pé a olhar mulheres que passavam, lindas, finas, deixando à fértil imaginação o que hoje se perdeu na pobreza do explícito?
Vida que há muito não é sua vida vivida, mas vida suportada. Cidade que não é mais sua cidade. Nesse lugar de medo que já passa a pavor não há mais lugar para velhos alquebrados, indefesos ante pivetes, frágeis no corpo para receber encontrões e no espírito para aceitar a sem-cerimônia dos mais jovens e vigorosos.
Agora chega à esquina. Vai se acalmando aos poucos, porque está prestes a descer ao seu mundo novo. O progresso – tantas vezes abominado, e com razão – também lhe trouxe esse outro mundo, cavado nas entranhas da terra.
Desce com lentidão as escadas do metrô. Na medida em que vai descendo, o mundo da superfície fica para trás, com seus bólidos ameaçadores sobre quatro rodas, com o calor, a barulheira, o empurra-empurra nas calçadas.
Ah, vai sentindo a gostosura do ar condicionado tocando-lhe o corpo, entrando pelas narinas, deixando-o menos fatigado em seu enfisema, herança de fumante de longos anos, hábito prazeroso que também foi obrigado a abandonar há algum tempo.
Aqui há luz, ordem, limpeza. Sua sensibilidade sabe da artificialidade deste oásis submerso. Mas, não há como resistir a esta gostosura.
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O amolador
Por jcarino | Categoria Minhas crônicas
Esta é mais uma de minhas crônicas semanais, no ar todas as terças-feiras aqui e no site Crônicas Cariocas.
O som é forte. Enquanto está longínquo, parece uma cigarra, em seu derradeiro canto, saudando o sol forte antes de morrer. Aos poucos, sua música diferente, única, entra pelos ouvidos e reverbera no eco das lembranças. Vem chegando o amolador.
Um amolador é a própria resistência de um passado em que o trabalho manual mantinha seu encanto e sua dignidade. Afrontando os modernismos, enfrentando a sofisticação tecnológica, eis o amolador, que apresenta sua labuta aparentemente simples, do aço contra o rebolo, num embate que, ao mesmo tempo em que resgata o fio cortante, cria estrelinhas contraditórias em pleno sol. Essas fagulhas se acendem na retina mais profunda de quem já viveu bastante, desde os tempos em que o canto dos pregoeiros ecoava em todas as ruas – vendedores de tudo, artesãos, consertadores.
O carrinho do amolador é, por si só, um primor de genialidade simples: a roda que move o rebolo é a mesma roda sobre a qual o amolador faz com que sua oficina itinerante passeie por aí em busca dos fregueses cada vez mais raros.
Dentre os pregoeiros, o amolador é um dos seres mais sofisticados. Ele faz música, e não produz apenas o som de guizos, matracas, apitos, no uso de qualquer recurso que chame a atenção para sua presença.
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Córregos
Por jcarino | Categoria Podcast - Minhas narrações
Córregos é mais uma de minhas crônicas antigas. Ei-la em sua versão lida por mim.
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