O ontem e o hoje das bancas de jornal
Por jcarino | Categoria Minhas crônicas
Hoje é terça-feira, dia de minha crônica nova semanal, neste Blog e no site www.cronicascariocas.com. Ei-la:
Você, caro leitor de mais idade, já deve ter reparado como mudaram as bancas de jornal.
Antigamente, as bancas eram pequenas, modestas. E mais: eram o reino do jornaleiro. Seu espaço inviolável, embora administrado com aquela simpatia genuína, que acabava transformando um jornaleiro num amigo.
Quem comprava não tinha acesso direto às publicações, a não ser com a intermediação zelosa do jornaleiro. Havia, aliás, muito mais do que hoje, uma ética prática, segundo a qual banca não era lugar de ler. Ali, quando muito, folheava-se; ler, só em casa, no trabalho, no bonde, no lotação…
Hoje, as bancas de jornal são espaços muito mais abertos, verdadeiras lojas em que os compradores entram, manuseiam e, muitos deles, se põem a ler as publicações, quase sem o compromisso de comprar.
As bancas, como de sorte quase todos os estabelecimentos de compra e venda, adotaram o tal self-service, esse sistema em que o próprio comprador, o próprio freguês, se serve, eliminando muito da intermediação dos vendedores. Economia, rapidez, comodidade? Não discuto isso, nem a praticidade do sistema. Mas que muito da relação humana envolvida na transação se perdeu, isso para mim não deixa dúvida…
Jornaleiros eram, eles mesmos, verdadeiras intuições, cantados em prosa e verso em quase todo lugar do mundo. Eram os balconistas dessa cultura disseminada nos milhares de pontos de venda existentes.
Cultura, sim. Uma cultura traduzida tanto na agilidade informativa dos jornais diários quanto nas noções de conhecimento diluídas no formato de diversão das revistas. Entre estas, destacam-se, em minha memória afetiva, os gibis, esse achado genial combinando, de forma lúdica, sintética e convincente, as letras e as figuras, na apresentação em quadrinhos.
Havia, ainda, as figurinhas. Falo dos álbuns de figurinhas realmente dignos deste nome, não as contrafações hoje existentes. As figurinhas de então tinham em seu âmago a surpresa dos envelopinhos fechados e ônus das duplicatas, que acabaram gerando outras práticas lúdicas, como o jogo do bafo-bafo, este por si só merecedor de uma crônica que acabarei escrevendo.
Bancas de jornal, na simplicidade de sua apresentação, eram também pontos de encontro. No centro do Rio de Janeiro, por exemplo - e sei que em muitas das grandes cidades do país -, a banca de jornal era a parada obrigatória para a compra do matutino, na ida para o trabalho, ou do vespertino, na volta dele.
Uma concessão sempre existiu, inserida naquela ética de leitores que mencionei aí acima: o mural das mais recentes notícias, composto pelos jornais e revistas semanais, afixados na lateral das bancas. Aí, das manchetes chamativas às fotografias escandalosas, eram extraídas as notícias, muitas das quais pedacinhos preciosos de informação mesmo para os que não podiam comprar.
Era aí, nesse entorno da banca de jornal, que surgiam as discussões, tanto as superficiais quanto as profundas. Quanta gente, prezado leitor, não teve sua iniciação no pensamento crítico, político, social, batendo boca, no melhor sentido, na banca de jornal, em discussões nas quais se podia ouvir, com muita frequência, a própria voz italianada ou aportuguesada dos jornaleiros?
Hoje se vende quase tudo em banca de jornal. Aliás, jornais mesmo, e revistas informativas, escasseiam, nessa competição desproporcional com a TV e a Internet. Predominam as revistas temáticas - muitas com temas estapafúrdios -, as coleções com CD’s, DVD’s, os penduricalhos oferecidos como brindes, e produtos que nada têm a ver com a informação ou a cultura, como medicamentos, pilhas, chaveirinhos… um sem número de itens de conveniência que hoje compõem o espaço de vendas dessa nova banca de jornal.
Confesso que, com sua aparência de quiosque de luxo, de lojinha chique, as novas bancas, embora cômodas, práticas e confortáveis, me intimidam um pouco, não me deixam à vontade. Isto se acentua quando descubro que, com as bancas antigas, se foram os antigos jornaleiros, que marcaram minha vida, muito menos como comerciantes de periódicos que como amigos da vida inteira.
