Quero ficar comigo
Por jcarino | Categoria Minhas crônicas
Apresento minha crônica semanal. Você pode lê-la também no site www.cronicascariocas.com, onde estão publicadas muitas outras de minha autoria.
Há dias em que desejamos apenas ficar conosco. Dias em que companhias – quaisquer companhias – sobram, ultrapassam essa solitude, essa sensação que, vindo de dentro, das profundezas de nosso ser, nos faz desejar o isolamento.
Repare, prezado leitor: não estou aqui me referindo àquela solidão patológica, ingrediente presente nos estados depressivos. Embora possa conter um tantinho disso, a vontade de ficar sozinhos, de que falo, tem muito mais de salutar que de doentio.
O ser humano é gregário, isto é, nasceu para pertencer a uma coletividade, a um grupo. Ouvimos isto desde que nascemos até nossa morte, ou seja, desde a solidão da chegada – ruidosa, comemorada por todos - até a solidão da partida – pranteada, lamentada. Nossa vida, de fato, ocorre no espaço entre essas duas solidões.
Também não estou falando aqui da solidão meditativa, aquele estado de isolamento intencional, aquele autoexame apoiado em técnicas que nos permitem o afastamento de tudo e a concentração em nós mesmos, ainda que possamos estar cercados de barulho e agitação.
Esse “quero ficar comigo” é aquele estado que surge em certos dias, exigindo de nós que nos apartemos das pessoas e das coisas. Em dias assim, o que cada um deseja – ainda que de forma difusa, e muitas vezes inconsciente – é estar consigo; é manter-se nos braços de uma sensação de isolamento que o conduz.
Mas esse sensação nos conduz sem direção, apenas como se nos suspendesse, como se nos levasse para um outro espaço, outra dimensão, onde não somos, onde apenas existimos sem outras implicações, como a identidade, as posses, os compromissos, as dores e prazeres.
Ao invés de patológica, essa sensação se parece mais com um estado de graça, uma suspensão, um desenraizamento em relação à vida, embora permanecendo nela. Não se deseja ouvir nada, falar nada, fazer nada; ficar consigo, somente: é isto apenas que pode ir ao encontro de tal estado.
Esse desejo de estar consigo mesmo atinge a todos. Mesmo crianças de tenra idade já o experimentam. Já reparou, caro leitor? Às vezes, a criança ainda nem sabe falar direito, e lá num determinado momento seu olhar fica perdido, mirando o nada. Então, aquele serzinho adorável, que é só ação e comunicação, nesse seu início de exploração do mundo, se desconecta, foge para alguma região onde não podemos alcançá-lo, por maiores que sejam nossos esforços, os brinquedos que lhe apresentamos, nossas gracinhas, nossos bilus-bilus.
Com o passar dos anos, o desejo de estarmos conosco geralmente se acentua. Velhos adoram estar consigo. Nestes momentos, precisamos ter o interesse e a sensibilidade para saber identificar esse estado saudável, não o confundindo com a miséria da depressão.
No “quero ficar comigo”, o pior é mesmo o interesse das pessoas, ou mesmo seu amor, sua amizade, sua afeição, quando são dedicados a nos tirar de nosso benfazejo estado de isolamento. Bem intencionadas, essas pessoas tentam, a todo custo, nos arrancar desse estado de ensimesmamento que nosso ser mais profundo tanto preza.
Há quem, por temperamento ou medo, lute contra esse estado. Quando a sensação, ainda tênue, de ficar consigo se apresenta, já esses a afastam, a sacodem com a força dos contatos forçados, das conversas apenas toleradas, das participações indesejadas.
Respeito pessoas assim, mas prefiro meu jeito de, vez por outra, ficar comigo. Mesmo sem pensamentos, meditações ou elucubrações, esse me parece um estado gozoso, prazeroso. E tem a vantagem adicional de ser só nosso, absolutamente impossível de partilhar; é uma reação ao gregarismo ao qual, afinal de contas, parecemos estar irremediavelmente presos na condição humana.
Que isto fique claro: gosto de estar no mundo e com o mundo; com as pessoas, com o alarido, com as ações e reações. Mas também prezo imensamente esse estado especial em que posso e desejo estar comigo.
Oxalá, caro leitor, possamos também entender que respeitar esse estado em todas as pessoas é a maior prova de amor ou amizade que podemos oferecer a elas.