Parece com alguém

Eis minha crônica das terças-feiras.

Não sou lá muito fisionomista. Apesar disso, como todo mundo, estou sujeito àquelas surpresas que chamo de “parece com alguém”.
Falo daquelas ocasiões, prezado leitor, em que, vendo uma pessoa, ela nos lembra outra que conhecemos.
Há parecenças óbvias. Não falo destas, mas daquelas mais sutis, que repousam em detalhes, em minúcias, num gesto, coisas assim que, muitas vezes, nem conseguimos determinar. Aliás, a genialidade dos retratistas ou dos caricaturistas repousa na capacidade de reconhecer esses detalhes - em reproduzi-los com exatidão, no caso dos retratistas, ou em exagerá-los, como o fazem os caricaturistas.
Não somos a singularidade nossos cabelos, rosto, jeito de andar, de gesticular; somos o conjunto, complexo e articulado disso tudo. Talvez repouse nessa complexidade de informações e sensações a possibilidade de que uma pessoa nos lembre outra. Por isso, quase sempre, depois de descobrirmos que tal pessoa não é aquela que pensávamos ser, acabamos atinando com os tais detalhes que nos confundiram.
Apoia-se nisso também a maravilha de nossa condição, ao mesmo tempo, de singulares e múltiplos. Cada um de nós é único, mas partilhamos características comuns com muitas outras pessoas. Isto até revela surpresas desagradáveis para os cultores da soberba e da arrogância: conheci um sujeito, muito rico e muito poderoso, cujos auxiliares lhe contrataram um excelente e experiente motorista. Na primeira saída, o constrangimento. E lá se foi, demitido, o ótimo profissional, condenado por essa surpresa do “parece com alguém”.
Eu disse “quase”. Há casos em que, mesmo depois de termos a certeza do engano, ainda damos tratos à bola para tentar descobrir o que foi que, nessa pessoa diante de nós, lembrou a outra que há tanto tempo não víamos.
Claro que essas surpresas da parecença são muitas vezes agradáveis, quando nos lembram pessoas queridas ou respeitadas; porém, outras vezes, são situações muito desagradáveis, quando pensamos nos deparar com aquele alguém que seria a última pessoa com quem desejaríamos nos encontrar. Grande ironia: estando enganados, sofremos com um encontro que imaginamos ser real!
Em muitas dessas situações, nossa certeza é tanta de que se trata de alguém conhecido, que vamos às últimas consequências, chegando a cumprimentar a pessoa por engano.
Pior ainda: há os efusivos, os que cumprimentam de forma aberta e barulhenta, quase sempre acompanhando o suposto reconhecimento de exclamações, em voz muito alta, do nome da pessoa, ou relativas ao que os dois teriam em comum.
Instaura-se, então, o reino da “saia justa”, do qual fica complicado sair sem passar pelo corredor estreito do ridículo.
De qualquer modo, a situação de “parecer com alguém” pode ser encarada como uma oportunidade de nos percebermos como pertencentes a um coletivo, que junta todos na condição humana. E, dentro deste, nos oferece a possibilidade desses reconhecimentos fortuitos que, quando ocorrem, podem nos lembrar que não somos, mesmo na aparência, somente aquele ego isolado e absolutamente diferente de todos. A semelhança pode ser uma armadilha benfazeja da natureza, alertando-nos para nosso pertencimento, indicado até na parecença com outras pessoas.
Além disso, é a oportunidade de nos lembrarmos de muitas pessoas, das quais não nos recordaríamos se não fossem essas situações.
Ademais, o “parece com alguém” pode até ser cultivado com um jogo divertido, que às vezes gosto de jogar. É assim: ponho-me, intencionalmente, a procurar semelhanças entre as pessoas que vejo com outras – parentes, amigos, conhecidos ou pessoas públicas, como artistas e políticos. Isso pode ser muito engraçado, sem falar que na certa desenvolve nossas capacidades de concentração e observação.
E você, caro leitor, se acha parecido com quem?

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