Bananas e bananeiras
Por jcarino | Categoria Minhas crônicas
Terça-feira é dia de crônica nova. Aí está ela:
Gosto muito de bananas. E de bananeiras.
A bananeira é bela na exuberância de suas folhas, que parecem formar um estojo, em que o cacho de bananas sobressai, amarelinho, como um pingente de ouro num estojo de veludo verde.
Sempre imagino que existe uma grande nobreza na apresentação das bananeiras. Folhas largas, fortes, longas vão se multiplicando até a formação de uma grande touceira, que sobressai em meio à vegetação, mesmo quando ainda não produziu a dádiva de ouro do cacho com as bananas maduras.
É grande a resistência de uma bananeira quando se tenta decretar sua morte. Não basta, então, um corte para extinguir a vida, como na grande maioria das plantas. A bananeira cortada renasce, tanto em exuberância quanto em vitalidade. Mesmo quando, além de cortar as folhas, os talos e as folhas, vai-se mais fundo, arrancando as raízes, sempre é possível ver, lindos, verdinhos, desafiadores, os brotinhos da bananeira surgindo em busca de nova vida. Por isso, os que desejam matar uma bananeira recorrem ao fogo, com sua destruição radical. Mesmo assim, desconfio que há bananeiras que conseguem renascer das cinzas! E nós, humanos, quando atingidos pelo sofrimento ou pelas dificuldades, parecemos não ter nem uma pequena parte dessa fibra de renascimento existentes nas bananeiras…
A sombra de uma bananeira é gostosíssima. Muitas vezes, na caminhada por uma estradinha de terra, encontramos uma grande touceira formada por várias bananeiras. Em momentos assim, com nosso corpo cansado e suado da jornada, é um bálsamo maravilhoso a sombra benfazeja das bananeiras, protegendo-nos do sol.
Outra maravilha das maravilhas: descansando à sombra das bananeiras, ouvimos, próximo, o murmurejar de um córrego. Então, uma folha de bananeira, caprichosamente dobrada, se transforma num recipiente melhor que qualquer copo de cristal. Usando esse cálice de verdura, mergulhando-o na água cristalina e deliciosa, não somente matamos nossa sede como vivenciamos um momento de felicidade física sem igual. E, se conseguirmos nos afinar com o silêncio em volta, quebrado apenas pelo canto rouco do córrego e o trinar de passarinhos, atingimos também muito paz, e uma felicidade espiritual rara e plena.
Hoje se fala bastante das propriedades nutritivas da banana. Neste tempo de corridas a pé e de milhões de corredores, que transformam ruas e avenidas numa grande celebração da saúde, vemos os praticantes de corrida pegando, para sua reposição de energia… bananas!
Eu, que também participo de corridas, vendo essa cena, lembro-me do quanto gosto de bananas, uma memória gustativa que vem lá da infância mais remota, em que o menino da cidade, de férias na roça, encontrava um cacho de bananas, apetitoso, madurinho, justificando plenamente a travessura de pular a cerca, interposta pelo fazendeiro, para comer deliciosas bananas, mesmo quando era preciso arriscar-se subindo na bananeira, ou expor-se a cobras, que também parecem gostar das bananeiras, da generosa sombra e da umidade que geralmente as cerca.
Nesse tempo, quem ia lá saber, como hoje, que, além de tudo, a banana é uma rica fonte de potássio, indispensável para repor as energias dos corredores e dos praticantes de excercício em geral? Imperavam, claro, eram a vontade de saborear as bananas e o gosto da aventura.
Nossa tropicalidade é bem representada pelas bananeiras: no aspecto negativo, quando se fala em “repúblicas bananeiras, em referência a pequenos países, com seus ditadores e sua monocultura”; e, do lado positivo, no imaginário de descontração, alegria e felicidade, em paraísos tropicais inexistentes tão equivocamente construídos por Hollywood, com seus cenários de filmes recheados de bananas e bananeiras. Aí, quase irresistivelmente, saímos relembrando a famosa marchinha “Chiquita Bacana, lá da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica…”
Benditas sejam as bananas, com sua nobreza vegetal; com seu gosto e cheiro deliciosos; com seu potássio; com suas bonitas touceiras; e sobretudo com sua sombra generosa, que pode estar nos esperando ali na próxima curva, real ou metafórica, da vida.

October 21st, 2009 at 10:27 am
Linda crônica, Carino! Ainda bem que eu trouxe de lanche justamente… uma banana! Porque deu uma vontade danada de comer uma!
Bjs!
October 25th, 2009 at 11:42 am
Valeu, Bel, por ter vindo provar as bananas de minha crônica.
Beijos.