Parece com alguém

Eis minha crônica das terças-feiras.

Não sou lá muito fisionomista. Apesar disso, como todo mundo, estou sujeito àquelas surpresas que chamo de “parece com alguém”.
Falo daquelas ocasiões, prezado leitor, em que, vendo uma pessoa, ela nos lembra outra que conhecemos.
Há parecenças óbvias. Não falo destas, mas daquelas mais sutis, que repousam em detalhes, em minúcias, num gesto, coisas assim que, muitas vezes, nem conseguimos determinar. Aliás, a genialidade dos retratistas ou dos caricaturistas repousa na capacidade de reconhecer esses detalhes - em reproduzi-los com exatidão, no caso dos retratistas, ou em exagerá-los, como o fazem os caricaturistas.
Não somos a singularidade nossos cabelos, rosto, jeito de andar, de gesticular; somos o conjunto, complexo e articulado disso tudo. Talvez repouse nessa complexidade de informações e sensações a possibilidade de que uma pessoa nos lembre outra. Por isso, quase sempre, depois de descobrirmos que tal pessoa não é aquela que pensávamos ser, acabamos atinando com os tais detalhes que nos confundiram.
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Minha corrida hoje no Aterro do Flamengo

Participei hoje da Corrida Adidas da Primavera, no Aterro do Flamengo. Com o tempo de 31:47:05, fui o décimo sexto colocado dentre 0s 65 participantes na minha categoria.

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Quero ficar comigo

Apresento minha crônica semanal. Você pode lê-la também no site www.cronicascariocas.com, onde estão publicadas muitas outras de minha autoria.

Há dias em que desejamos apenas ficar conosco. Dias em que companhias – quaisquer companhias – sobram, ultrapassam essa solitude, essa sensação que, vindo de dentro, das profundezas de nosso ser, nos faz desejar o isolamento.
Repare, prezado leitor: não estou aqui me referindo àquela solidão patológica, ingrediente presente nos estados depressivos. Embora possa conter um tantinho disso, a vontade de ficar sozinhos, de que falo, tem muito mais de salutar que de doentio.
O ser humano é gregário, isto é, nasceu para pertencer a uma coletividade, a um grupo. Ouvimos isto desde que nascemos até nossa morte, ou seja, desde a solidão da chegada – ruidosa, comemorada por todos - até a solidão da partida – pranteada, lamentada. Nossa vida, de fato, ocorre no espaço entre essas duas solidões.
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O ontem e o hoje das bancas de jornal

Hoje é terça-feira, dia de minha crônica nova semanal, neste Blog e no site www.cronicascariocas.com. Ei-la:

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Você, caro leitor de mais idade, já deve ter reparado como mudaram as bancas de jornal.
Antigamente, as bancas eram pequenas, modestas. E mais: eram o reino do jornaleiro. Seu espaço inviolável, embora administrado com aquela simpatia genuína, que acabava transformando um jornaleiro num amigo.
Quem comprava não tinha acesso direto às publicações, a não ser com a intermediação zelosa do jornaleiro. Havia, aliás, muito mais do que hoje, uma ética prática, segundo a qual banca não era lugar de ler. Ali, quando muito, folheava-se; ler, só em casa, no trabalho, no bonde, no lotação…
Hoje, as bancas de jornal são espaços muito mais abertos, verdadeiras lojas em que os compradores entram, manuseiam e, muitos deles, se põem a ler as publicações, quase sem o compromisso de comprar.
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Rumo ao mar

Toda terça-feira publico crônica nova, aqui e no site www.cronicascariocas.com. Eis a de hoje:

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Daqui, do conforto relativo deste chão de tábuas, no cais improvisado da colônia de pescadores, acabo de vê-los partir rumo ao mar alto.
É já noite fechada. Os barcos que ainda ficaram balouçam, velando respeitosamente a escuridão da noite, e seus mistérios.
Na amurada de alguns barcos, pássaros marítimos – que minha ignorância ornitológica não me permite identificar – pousam, e depois esvoaçam, na esperança, que sempre se realiza, da facilidade de um pedaço de peixe, apanhado sem as peripécias dos longos sobrevôos e dos mergulhos.
E lá foram os barcos de pesca, um a um, repetindo a milenar busca do peixe.

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A magia das escadarias

A seguir, mais uma de minhas crônicas publicadas toda terça-feira:

Para mim, as escadarias têm uma espécie de magia. Sempre que me aproximo de uma, fico tentando a decifrar essa dimensão mágica, que tem a ver com a dimensão ascensional.
Ascender, subir, elevar-se – palavras que se associam a redenção, sucesso, vitória: ascender aos céus, subir na vida, elevar-se por seus próprios méritos.
Nossas simples escadas domésticas, ou mesmo as escadas utilitárias dos profissionais - como os pedreiros, pintores, ou todos os que se utilizam desses instrumentos de subir - essas não têm a tal magia; não nos escondem nada, não ameaçam nos surpreender de repente com algo inusitado. Cumprem sua missão de nos elevar do chão, e pronto.
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Os anjos sujos da noite

Eis mais uma de minhas crônicas semanais. Está publicada também no site www.cronicascariocas.com

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Eles chegam na madrugada. Quase sempre ainda estou acordado e ouço seu alarido. São alegres e barulhentos esses anjos. Muita gente reclama de suas conversas em voz alta e de suas gargalhadas e gritos, que ecoam no silêncio noturno.
Eles não têm asas – pelo menos aparentes. Não voam, ou voam apenas dependurados no veículo, num malabarismo incrível.
Eles são os lixeiros, esses anjos sujos e benfeitores.
São anjos que não se vestem de branco, com aqueles trajes diáfanos dos anjos habituais. Sua roupa, de uma cor laranja-cheguei, precisa ser assim, para que chame a atenção dos motoristas mais distraídos, quando atravessam a rua, para lá e para cá, pegando os latões e embrulhos contendo a sujeirada nossa de todos os dias.
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Aurora

Toda terça-feira, neste espaço e no site www.cronicascariocas.com, publico uma crônica inédita. Eis a de hoje:

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Tece-se a tímida trama da aurora, feita de pálidas e diáfanas nuvens, de fracos rubores e poucos carmesins.
Súbito, surge um pontinho de luz entre o buquê de nebulosidade. Aos poucos, essa luzinha aumenta seu brilho, como se, com força mansa, porém determinada, buscasse escapar do filtro de algodão acinzentado.
Então, acontece uma explosão de luz, num jato de brilho amarelado que, se olhado frontalmente, cega por instantes nossos olhos.
O milagre acontece, mais uma vez, como desde todo o sempre: acende-se a luminosidade do dia; a aurora se impõe.
Porém, essa sinfonia de luz não é elaborada facilmente. Ela tem de compor-se com a resistência das nuvens, com a cumplicidade do vento; precisa varrer do céu os vestígios de negror da noite; necessita vencer definitivamente as trevas, acendendo, aos poucos, as ainda vacilantes luzes do dia.

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Da mentira nossa de cada dia

Aqui está mais uma de minhas crônicas inéditas, publicadas toda terça-feira, neste espaço e no site www.crônicascariocas.com

Houve um tempo – que parece tão remoto – em que a mentira envergonhava. Exceção à regra da verdade, mentir tornava execráveis os responsáveis pelas grandes mentiras e desprezíveis os que faziam das pequenas mentiras um instrumento cotidiano para enganar os outros e levar vantagem.
Já houve culturas – na oriental, de modo geral, por exemplo - em que a falta à verdade lesava a honra de modo tão definitivo que só o suicídio poderia reparar a vergonha de ser desmascarado. Mesmo assim, os respingos da vergonha ainda permaneciam atingindo a família do mentiroso.
Hoje em dia, a verdade quase não se sustenta mais nem como conceito para reflexões filosóficas. Pôncio Pilatos nem se preocuparia com essa tal de verdade, com “v” maiúsculo ou minúsculo…
O mentir generalizou-se de tal modo que aqueles que ousam tentar se pautar pela verdade são encarados quase como portadores de uma peste – a “epidemia da verdade”, produzida pelo vírus da veracidade, e capaz de destruir todas as bases da sociedade humana, apoiada nas bases sólidas da… mentira.
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As frutas na estrada

Eis mais uma de minhas crônicas das terças-feiras.
Para ler mais crônicas de minha autoria, clique na ilustração.


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Foi-se o tempo em que o título desta crônica significava um momento delicioso assim: a gente, perambulando por uma estradinha de terra, humilde, empoeirada, de repente se deparava com uma goiabeira quase totalmente escondida no mato. As goiabas amarelinhas pareciam jóias, meio exibidas, meio escondidas, no estojo de veludo verde da vegetação.
Desalinhadas, de tamanhos variados, quase sempre já um pouco comidas pelos passarinhos, ou cheias dos seus inevitáveis bichinhos, essas frutas eram o show espontâneo, em cor, cheiro e sabor, da desordeira ordem mantida pela mãe natureza.
As frutas a que me refiro são as que a gente encontra, hoje em dia, nas margens das rodovias asfaltadas, esses caminhos funcionais, bonitos, bem traçados, cheios de sinalização, segurança, conforto, resultantes dos benefícios da tecnologia. Caminhos da pressa, que não são “em si”, mas apenas “levam para”.
Lá estão as frutas, agora arrumadas, aprisionadas em caixotes, ou dependuradas com esmero. São quase exatamente prateleiras de hortifrutis transplantadas para a beira das estradas.

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